Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Comecei a pensar com outros olhos

Titereteiro dos meus olhos,
os outros olhos, e eu devaneio.

Preciso cortar os fios
das hastes
de todos os meus músculos, ósculos
moluscos.

Voltas serão dadas, dívidas cobradas!

Através dos vidros-fio
dos mafagafos aflitos,
sanhaços ainda impúberes fiam,
deixando seus ninhos
sem saber voar.

A luz se faz embaçada
fixando com mil alfinetes
a imagem primeira-derradeira
dos teus olhos-amor sobreviventes.

Vivo então segundo essa transparência-lei
para apenas vislumbrar o que se segue:

Cada vez que te voltas
e não te reconheço,
me gasto mais um pouco
e volto a te buscar
nos abismos transbordantes
da minha primeira respiração.



Paulo Baroukh 2009
baroukh@interpsic.com.br

Quinta-feira, Setembro 11, 2008

Sobre a inexplicável beleza da inexistência da verdade

(para minha filha)

A busca é uma constante se é pela verdade,
apesar da consciência de sua inexistência.
Que motor é esse? Que combustível?
Que queima e causa dor
e que trás escuridão no caminho pela busca da luz?

Mas de repente surge um vaga-lume,
uma luz que vaga sem explicação:
não deixa nada mais claro do que estava,
mas inebria os sentidos cansados de busca,
distrai das angústias pela beleza inexplicável: está vivo!

E voa, e pisca, e roda e rodopia e some e reaparece,
efêmero na fragilidade da sua força.
E assim tudo é três: a fragilidade, a força e a beleza.
primeiro o susto, depois a tentativa e por “não-último” o foco,
pois que se torna novo susto e faz andar a velha roda.

Então, andamos? Pra chegar aonde?
Se a flecha deixou para trás o arco e o arqueiro,
com a consciência de que chegar ao alvo é o fim dos seus dias,
o que pode ela, senão se deixar fluir e viver o caminho?
Ah, supremo e surpreendente e belo caminho...

E por fim, sobre a utilidade de se questionar a verdade...
Esse é o feto do conhecimento, que deve ser gerado a cada momento,
e quando nascido, alimentado e acalentado,
pra que um dia possa usar seus olhos de criança,
e nos mostrar e ensinar tudo quanto é belo.

Poeticamente belo...

Paulo Baroukh 2008
baroukh@interpsic.com.br

Um-Hai-Kai

Sobre a propriedade do meu próprio tempo:
Jogo contra o vento a sorte da minha noite,
quem tiver a melhor carta leva o monte.

Paulo Baroukh 2008
baroukh@interpsic.com.br

Quarta-feira, Junho 11, 2008

calmaria com jeito de chuva

conectado com a vida
sigo no encontro
altamente compromissado
com as revoluções necessárias
na lucidez cativante
de uma luz antiga
que quase se apagou
mas sempre retorna em mil versos ocultos
nas metáforas cegas do meu ser
por excesso de luz.

Paulo Baroukh 2008
baroukh@interpsic.com.br

Terça-feira, Abril 10, 2007

Parei !

No assombro de ir morrendo minha própria morte,
escrevo por falta do que fazer,
novamente sem pouso e sem morada.

A poesia sempre nasceu da dor e da angústia,
estabilidade jamais foi inspiração,
no entanto, brinco com as palavras,
como se alguma vez tivessem me dado asas.

Depois me vejo assim: sem romantismo, sem metáforas,
ficou tudo científico, com toda a razão,
e sem nenhum sentido. Anestesiado.

Penso, logo não encontro saída, posto que nunca procurei.
Penso, logo analiso... E fica tudo esfumaçado,
neblina na qual jamais encontrarei aquele velho sonho
em que eu voava, primeiro entre quatro paredes,
depois pela rua, tomando um impulso primordial,
como um sopro primeiro,
com medo de menino, que não impede o vôo.

Vertigem, instabilidade, vento, medo e frio na barriga, mas vôo.
E depois, que fazer se a vida passou, e continua passando,
e tudo que ela faz é passar?

Volta e meia todo mundo precisa da solidão.
Estar consigo mesmo por um momento,
afastar o ruído do movimento da vida passando.
Muito barulho por nada.

Tento lembrar o que me move e não consigo.
Então paro!

E é aí que as coisas começam a acontecer.


Paulo Baroukh 2003
baroukh@interpsic.com.br

Quinta-feira, Julho 27, 2006

Escravo das palavras

A umidade do dia após noite mal dormida
remete à escuridão que é todo amanhã,
bicho sem controle, mesmo a custa de todo ontem.

A água que não flui à revelia de sua natureza
empoça todo meu campo de visão,
atolando um veículo obeso,
que insiste em carregar todo esse peso morto.

Escravo das palavras,
umidade me obriga à unidade.
E quanto mais busco, mais brusco,
mais Basco, mais asco.

Veículo me traz ventrículo, vão infarto do miocárdio,
remete a grumete, marinheiro de água doce
e um papagaio que come bolachas no ombro da minha pirataria.
Enquanto isso borrachas líquidas escorrem das seringueiras de Chapurí,
onde sempre conheci Chico Mendes.

Bicho me arremessa na gratuidade dos ecologistas,
lembra lixo, lixão, ecossistema ilimitado,
fadado ao suicídio social e coletivo.
E essa imensa massa humana que sobrevive na sujeira.
Humana, Úmida.

Atolado (que palavra feitora essa!), Aiatolá num Oriente sem Norte,
Ocidente sem Sul,
vendendo em shoppings e desfilando (e desfiliando) em passarelas
coisas hippies, bolívares e guevaras.
Colonização insana colhendo sua nefasta inconseqüência.

Empoçada a água não flui, não congela,
não derrete, não chove...
E no mais, chovo eu.
E chove minha noite mal dormida.


Paulo Baroukh 2006
baroukh@interpsic.com.br

Quinta-feira, Março 30, 2006

idéia para um poema

idéia para um poema
(para Pedro, Márcio e Charles)

da maneira como vivo e vejo as coisas,
nada pode ser esquecido,
tudo está vivo e vinculado,
tudo acontecendo agora, o tempo inteiro.

e por ser inteiro o tempo,
em suas redes me misturo e me enrosco
no prazer de estar em todos os tempos
presente e me entregando sempre.

às vezes paixão suprema, às vezes armadilha,
no sentido apaziguado de ser pego,
de estar enredado com as veias embaraçadas
e não querer ter pra onde escapar.

versos maneiros, poesia imortal,
semente de correnteza, medo primal,
na fluência, no deixar e no fazer fluir
toda a condição humana da memória.

e por ser humana a memória, e por ser, assim, incoerente e obstinada,
quero me lembrar de coisas que ainda não aconteceram,
ter saudades de lugares que nunca conheci
e se meu coração agüentar, ainda ter idéias para uns poemas.


Paulo Baroukh 2006
baroukh@interpsic.com.br

Sexta-feira, Abril 08, 2005

O vazio e o silêncio

O vazio e o silêncio,
tão procurados e tão evitados,
na metrópole e no cotidiano,
a chafurdar na lama da falta do horizonte.

Não como se a morte fosse eminente,
nem como se uma doença fosse sendo engendrada,
invisível e inconsciente dentro de algum buraco úmido
esquecido dentro do corpo cansado.

Mas um suspiro aliviado, assim como se afogar numa onda,
vislumbrada e inevitável ao longe,
que ao chegar, dilui em espuma a ansiedade da espera;
em si, muito mais penosa do que o próprio afogar-se.

Um repente: dois olhos ardentes abertos à força pela água salgada,
velha conhecida de anos e anos de ondas,
que a infância e a memória incumbiram-se de adoçar,
e que bebo na ilusão deste verso, mas não dos outros.

Ilusão é fazer parte da onda;
a realidade, uma falta de ar, molhada e amarga.

De ondas se faz a fantasia, essa matéria primordial para os poetas,
que quando acordam têm os dedos formigantes sob o peito
para não deixar que lhe escapem os doces sonhos da noite.

E vêm o vazio e o silêncio a salvar vidas,
tão procuradas e tão evitadas,
na metrópole e no cotidiano
a chafurdar na lama da falta do horizonte.


Paulo Baroukh 2005

Quinta-feira, Março 24, 2005

Ousadia

Como ousar falar de mim
se o próprio falar já não me pertence,
minha língua já roubou mil línguas
e o rubor inunda minha face,
só salvo pelas minhas velhas metáforas?

Como, mostre-me o caminho,
se as palavras que um dia proferi
ainda fazem mil sentidos infinitos
e a minha caravela ainda não voltou ao cais,
apesar de todos os seus novos descobrimentos?

Como resgatar alguns, deixando
vilmente outros no caminho ardente
se as delícias não me pertencem
e já não as posso mais ensinar
em desenhos na areia desse vasto deserto?

Se a cada cinco linhas paro,
se a cada palavra impero,
se nunca e jamais emperro,
se mero é meu destino,
e se apenas parado espero?


Paulo Baroukh 2004

rima

gosto de viver assim:
rodeado de amigos;
uma ilha, como todo ser é.

a flôr olha para o pássaro:
o pássaro se inspira;
faz cocô no meu carro.

uma câmera meu olho afaga:
imagino;
minhas imagens fogem, desaparecem.

fragmentos de um cotidiano desabitado:
habilitado à rima riquíssima e
ensimesmada.

brinco com esse fogo que me abala:
derrubo as paredes,
me ocupo a veia, revolvo as teias.

falo com uma tela em branco, minha noite cala;
penso no que diriam os viventes,
que por acaso me lessem.

calo.


Paulo Baroukh 2003

Paz

a dor pode ser mais ouvida
quanto mais interna for
os vínculos se rompem
não pode romper
pode romper
corromper
romper
romper meus tímpanos
ruído infernal, insuportável
vontade, desejo,
rompimento
não
não pode
não pode romper
ficar surdo pode
um longo assobio, um silvo
quase um silêncio
um incêndio
um ardor
uma guerra
um amor
abre aspas
paz
ás

s
i
l
ê
n
c
i
o


Paulo Baroukh 2003

pra ninguém

Um mar de fantasmas de amores antigos
com ondas altas demais que aí vem!
E eu a pensar sempre
que soubesse nadar muito bem...

Afogo-me em ares de novos tempos
abrandados por pseudo-amores
e falsas promessas
nas quais sei bem navegar
num barco furado

Precisava agora do sol
do calor do teu corpo
lavrado pelo teu desejo...
ardente, al dente

Ah..., a aventura da conquista
do puro prazer da sedução
das minhas palavras mágicas
te atingindo em cheio a alma e o coração

Ser poesia é não ter ética por um momento
Nenhuma imagem é de ninguém
A inspiração não pertence ao verso
é apenas um vento que vai e vem

E passa, ou não,
deixando marcas, ou não, não importa...
Se a rima é pobre ou rica
não é da conta de ninguém

E por isso vou me permitindo
do fundo da pieguice da minha alma meio lusitana
estar sendo agora um poema
que nunca ninguém vai ler


Paulo Baroukh 2000

um lugar: o córrego de Sapopemba

tanta coisa vivida por dentro e com calma
que escolho dentre essas tantas palavras
existentes, insistentes e inventadas
para cantar mais esse dia cinza

cantos entoados
e um córrego que me leva a cantos escondidos
classes sociais se batem
no calor da minha convivência

prá que tanto viver? qual o sentido?
estar redundante de acordo
com o coração simplesmente?

na beira do rio abro os olhos e fecho a boca
gentes moram em casas sobre palafitas
crianças em casas de boneca
saudam o estrangeiro ao me ver passar

piso o barro surrado pela chuva incessante
o frio de verão é humano-desumano
A chuva, enquanto respinga no meus óculos,
pinta de cinza essa cidade de retalhos

meu carro: uma balsa entre mundos
e mudo permaneço
meu olhar é levado pela mão morro acima
meu entendimento na enxurrada voa morro abaixo
o rio sujo corre
meu carro molhado morre

e eu renasço e morro um pouco na lama
a cada olhar
a cada sentir
dentro dos quais não cabe tanto abandono

a favela deixada prá trás me acompanha nessa história
uma das muitas que não posso contar
e que já fazem parte da minha alma errante
ao que novamente me pergunto:
é prá estar redundante de acordo
com o coração simplesmente?


Paulo Baroukh 2000

Metropolitano

que mito é esse? que enigma solitário?
em que labirinto me encontro,
que não me dá paz nem saída,
depois de tanto andar?

um grito desesperado,
uma palavra sem sentido imediato,
um filho, uma mãe, no eterno embate idílico
e sábio e cego..

no desafio aos deuses
no amor ao fogo ou aos homens,
ou aos próprios pássaros
que lhe devoram as entranhas,
estranha imortalidade.

e mesmo assim tem seu preço alto demais
nas suas seqüências concêntricas
até o infinito, sincrônicas e divinas.
mas então porque o letreiro do metrô
não pára de anunciar minha morte?

volto sempre à mesma estação,
quebrou-se meu fio que era do amor de Ariadne.
perdi minha clava sagrada,
e mesmo assim gritei dentro do túnel escuro e vazio...

claro que queria sair
e claro que gritei para ninguém,
mas a voz de uma deusa impossível advertia:

- ”favor não ultrapassar a faixa amarela...”


Paulo Baroukh 2000

A pé, a engendrar poemas

(Há pouco e a pé, um nascer de sol no mar)

A dormir, acordei, ainda noite.
O mar rugia dentro de mim e fora,
e virados, eu e ele,
companheiros de mil pensamentos trágicos;
mas o mar não fabrica imagens,
apenas as é.

O sol nascente e eu a revirar:
- Ah, chega, não vou dormir mais, mesmo...
Levanto, ainda noite, me sei só,
poucos raios surgem no horizonte,
deixando vermelhas as cristas das nuvens.

Ando e ando.
Quero pedra, quero conexão com a Terra.
O semicírculo vai surgindo mais:
Ruídos me fazem pensar em vampiros,
que se vão.

Tento pensar em sereias.
Mas atraio cães, velhos, loucos e manetas.
E todos latem pra mim.

Aos loucos respondo como louco,
para a surpresa de ambos.
Querem falar o dia. Eu quero calar minha noite.

Pedra enfim.
O sol nasce inteiro, no mar
produzindo ondas transparentes,
para meu deleite e amor.
Porquê não posso levá-las todas
pra onde quer que eu for, daqui pra frente?

Encontro um peixe encalhado, se afogando.
Estou identificado.
Daria a ele meu pulmão, se pudesse,
mas tudo que faço é colocá-lo de volta no mar,
com suas guelras ofegantes.
Poderia sobreviver, mas não tem força para nadar.
Estou identificado.

Um repente, e uma gaivota me tira do peixe.
Surpreendentemente grande,
mas também não via uma tão de perto desde o Tejo,
onde elas vêm a voar,
comer pequenas coisas
às mãos de lacrimejantes seres líricos.

Mas...não nos afoguemos ainda mais...
Levar as ondas transparentes a todos os lugares,
e deixar que meu coração se inunde.

O ano termina e com ele nada termina.
Os ciclos não se fecham,
apenas se iniciam eternamente.

E tenho asas.
Não estão velhas nem cansadas,
mas com pouco uso.
Não posso dá-las ao peixe afogado,
assim como não posso salvar-me com asas alheias.

Então, alheio sigo a engendrar poemas a pé
e ao nascer do sol.
Insone, sonhando acordado,
com minhas ondas transparentes de sol
e cristas de ouro.

Sobre a areia seres mínimos: serão pulgas?
Penso nas pulgas que incomodam a gente na cama, à noite...
Mas não; a natureza é mais variada que meus pensamentos.
São pequenos vampiros,
que voltam para baixo da Terra,
sob o sol imperador já ardente.


Paulo Baroukh 1999

a própria vela

um grande amor que se vai
é sempre uma onda
um pouco mais forte
do que se esperava

é aquela que deixa o mar
mais fundo
e por um momento
faz perder o pé

é aquele verso preso
que tira o fôlego por um átimo
surpreendendo quando finalmente aparece
entre um verbo e outro
me deixando assim
tão substantivo, tão transitivo e tão direto

abrir todas as velas ao vento
sendo menos o verbo abrir
do que sendo a própria vela


Paulo Baroukh 1999

Quarta-feira, Março 23, 2005

Survivors

“Para Ducia Schoikhet, uma sobrevivente do holocausto”

Anjos de asas cansadas,
de tantos vôos, ritmo duvidoso,
deixam cair em solo fertil,
inerte semente de história.

Com a ilusão de humanizar suas asas
posicionam num único instante,
toda a saga de meio século,
mas, ah..., anjos não se humanizam,
apenas são, apenas voam, apenas flutuam.

Com a dolorida consciência de que cairão,
depositam a meus inertes pés,
a não menos amarga memória:
depoem armas de dias vividos à sua revelia.

Por ter sobrevivido? Já não se sabe.
Porque são anjos, de asas exaustas.
Quase já não voam, penoso último esforço,
antes da inevitável queda-luz,
em direção à seu último disfarce.

Uma vez mais, ainda:
aprisionando imagens de papel,
imortalizando a massa mortal,
planando nos ventos quentes,
gerados pelo derradeiro pulso:
sangue posto em movimento
por um coração ensandecido de rebeldia contra a morte.

Falam com a morte todo o tempo,
passado e futuro,
esses anjos improváveis.
Negociam cada minuto.
Contra a gravidade, cada grão de areia conta,
a desacelerar a ampulheta,
desse real quarto de espelhos paralelos
a ofuscar-me a noção da verdade.
Trazem cores, luzes, afagos,
atingindo olhos, já não existindo,
como uma estrêla que tendo explodido,
lança sua doce imagem,
para crianças que apontarão
sem medo de verrugas nem de bruxas.

Trazem sabores, odores, antigamentes,
impossíveis audiovisuais,
iludindo na imagem de uma só pessoa,
em frente a uma câmera imóvel,
olhos ávidos que assistirão
ao mais belo filme de amor.

Amores secos, flores mortas, asas cansadas.
Muito,
brindam então à vida, e apenas cessam:
mergulham para dentro de tudo que pode
e tudo que não pode ter acontecido.

Por fim, o último e vão desejo humano:
preservar tradições
sem que o passado se repita.


Paulo Baroukh 1998

Sempre!

Encosto em ser eu mesmo,
junto, junto,
me afago e me entristeço,
me espanto e me desconheço.

Faço que faço,
me viro pelo avesso,
deparo-me com todos meus fantasmas.
Deve ser parecida, a hora da morte.

Revivo meus sonhos e pesadelos,
com tudo que foram, ou que fiz deles,
símbolos aleatórios de um poeta apaixonado.
Reencontro minha infância,
com uma terrivel constância.

De ser eu mesmo já não posso me furtar,
roubar meu tempo já não me satisfaz,
o torpor se esvai e clama por vida:
Agora, já...

Preciso ir à todo pano em direção às terras novas,
localizada nos recônditos do inferno,
sentir de perto o hálito do Dragão,
este íntimo desconhecido.

Encosto em ser eu mesmo,
junto, junto,
me afago e me entristeço,
me espanto e me desconheço.

Não me é possivel repetir antigas fórmulas,
nada funciona como antes,
os referenciais já não são.
O sol que me ofusca não é o mesmo.
A lua. . . fugiu!

Turbilhão, furacão, ninguém pode encostar em mim.
Sinto amiga essa solidão de plantador de palavras,
acerco-me de meu epicentro, meço a precisão de meus versos,
e recolho-me à proximidade de minha própria morte,
para dar lugar a esse novo mistério atraente e apavorante.

Sempre!


Paulo Baroukh 1998

Hai kai

Fases da lua:
curvas exploráveis,
mistérios insondáveis


Paulo Baroukh 1998

Gestação

"meu umbigo virou do avesso...!" (Carmem Machado Luz)

à espera, à espreita,
coração em gestação...
corpo cansado, comprimido ao limite,
espelho estilhaçado,
imagens fragmentadas,
reflexos inúteis de fantasmas ultrapassados:
ícones de um mundo novo
por ser descoberto,
conquistado,
mistério inaudito de um tempo que se esvai.

dilatação... contração...
gravidez de coração.
sentidos todos de prontidão,
sons de cítaras impossíveis,
de impassíveis nãos.

mãos ávidas, olhos procurantes,
o corpo: um instrumento afinado ao limite de perfeição.
pele sensível, esticada, transparente, opaca,
deixando antever o fenômeno da criação.

parindo palavras, dizendo insanidades,
proferindo blasfêmias, e desejos antigos entre os dedos.
pedindo à dor que finalmente venha a ser real,
e arrebente as entranhas dormentes de corações pulsantes.

olhos fechados, sentidos aguçados,
dentes cerrados, pragas e rezas pagãs, incompreensíveis.
e... luz.

dar à luz, vir à luz,
virar luz... FLASH!
num alucinante último esforço,
afogar na placenta, já sem uso, todas as dúvidas, todos os mistérios.

soprar a poeira e ir adiante, radiante, sem limites.
só isso resta,
criança...
ignorante quanto ao milagre da própria existência.


Paulo Baroukh 1998

Filme

Avante, avante, o filme não para;
roda a mercê de vil motor,
medo insano da revelação final
que ao cabo traduz caminho e dor.

Quem assitirá tal obra sempre inacabada?
Que olhos baços esperarão ansiosos pelo ritmo,
que brilhante duração terá
esse caminhar de luzes e sombras?

Já não importa...
A memória se faz insuportável
e num registro, menos cruel, se engana por querer
nessa ilusão de movimento, momento, movimento.

Ah, que doce é a ilusão.
Lareiras, netos, cães, vidros coloridos,
uma memória ao contrário,
lembrando do tempo que está por vir.
Cientistas, loucos, tentando modificar o curso do futuro.

Caminhemos apenas sem a paz,
desejo vão, de vãos amores e amargas recordações.
Paixão é como palavra:
Dita com força, incendeia o caminhar,
com doçura, seduz,
com dúvina, enaltece,
com simplicidade, momento.

Mistifico e minto.
A procura de um escudo mágico
que proteja da dor
sem impedir de viver as luzes confusas,
belamente difusas e recortadas de se viver essa paixão.

A
única paixão possível.

E no final, quem vai assistir ao meu filme?

Exaustivamente,

Eu.


Paulo Baroukh 1998

Segunda-feira, Março 21, 2005

dia 7

não amanhece, o caos impera!
espaços e cores explodem ao toque
dos meus sentidos sem idade:
“as paredes tem algo a dizer!”
ao que me faço dia à força de atenção.

então, súbito, acorda,
ainda noite, alpinista do vácuo,
minha energia clama por movimento,
esse ópio sem adjetivos,
ao que se curva a manhã, e finalmente acontece.

travestir-me de dia,
tentar encontrar os espaços, ainda verdes,
a colorir minha maturidade...
meu último dente nasce... à esquerda... em cima...
me apavora de razão,
ao que o coração transborda.

passos, passos, passos...
penso:” prá que tanto andar,
se do fundo não se passa?”
não se trata de poço, nem de poça,
mas de todo um oceano em expansão.
ao que me salgo de querer criar raiz, promovendo tormenta.

tem gente, bendita seja, que acorda agora,
e me acompanha no trabalhar,
(durante a revolução seria fuzilado por menos que isso),
não pensa, apenas pega o trem.
não sabe prá onde, nem porque,
e é essa sua beleza.

claro que algum pensa:
“ah, como seria bom estar em casa, só fazendo poesia...”
mas são sonhos vãos,
de um círculo que se fecha à minha volta,
em rodas de trem, vira ônibus, vira metrô, vira lotação;
...e o meu dia, que não amanhece...?

sustento, rebento, ah... a matéria se impõe.
o vício da incerteza,
menos como princípio do que inconsequência,
a desafiar as leis da física e da gramática, impera: “mudanças são!”
então meu sonho é violentamente interrompido,
e ao meu ouvido a poesia sussura, aos berros, a relativizar:

- “porra, caralho! são 5 horas da manhã... vai dormir, Zé!”


Paulo Baroukh 1998

Criança

a criança vos saúda
cabelos enrrolados: anjo
calada
cheia de espinhos e doçuras
no seu mistério

vaga em andrajos
pedinte e desconcertada
dando de tudo um pouco:
silêncios e músicas,
cores e nomes

procura, ao vos saudar,
no vosso, o próprio nome.
pronuncia brilhos incandescentes.
no vosso olhar,
busca a alma

quem poderá, um dia, dizer que conheceu alguém?

no entanto ciclos se fecham,
tormentas dão trégua,
mãos laboriosas cessam,
máquinas se quebram,
e almas são misteriosas por definição

a criança, então, vos saúda
ante o impossível do verdadeiro toque.


Paulo Baroukh 1998

Sexta-feira, Março 18, 2005

pequeno poema torto

após noites revirando calado
meu peito não mais cantando
amor dorme
paixão dorme
filho dorme
filha dorme
consciência dorme
angústia se impõe, e deixo
solidão desejada
mas solidão

dia de sol nubla minha mente
cinzenta
desentendida
meditação falha
pensamento falha
sobrevem um imenso cansaço de existir

então, por um momento, inexisto
insisto na poesia
teimo em ver num espaço em branco a possibilidade
e em preenchendo espaços vazios
com letras bem traçadas
brinco de iludir, e iludo

ah, se eu pudesse agora
estar dentro do mar
nadando sem rumo certo
como nau perdida, imerso,
salgado até a alma
e amargo procurando a calma

espreito a vida
espero não sei o que
deixo que ela me leve
como uma amante experiente
até a fonte das minhas dores vãs

seguro-me entre minhas próprias mãos ávidas
e em sendo esfinge
não decifro-me, e devoro-me
em pedaços pequenos
engasgando entre um bocado e outro
porém não encontro resposta
visto que não fiz pergunta
e meu peito explode em revolta
manchando as paredes do inferno
de vidro líquido incandescente
que ao esfriar se torna transparente
desabafando para ninguém
as encostas obscuras de ser
vislumbro o paraiso e deixo passar.
recebo esse inferno como velho conhecido
de demônios que não escuto
de desprazer contra o qual não luto

fico de luto, morreu não sei bem o que
ou se sei, faço que não, para não doer
no limbo, nas entrelinhas
na escuridão desse meu cansaço imenso
que me devora
a me iluminar de trevas
e desassossegar e rasgar toda minha pele
antes adocicada

vou vagando, na espreita
entre palavras fortes demais
promovendo um terremoto
não deixando nem mesmo o vento incólume
desapareço, não creço
me permito a solidão
desespero, não luto
armistício que sou, sem paz
onde jaz o velho brilho, semeio
e colho universos de estrêlas embaçadas

dia de sol dormente
luz demente que me ofusca
porém a noite não passa a me revirar
e não deixar que eu durma

inevitáveis, porém, todos dormem
sobre meus ombros doloridos
e insistem em não me ver, visto que não me mostro
e repentino encosto a cabeça em branco
num furacão repleto de palavras negras
a ao tentar ordená-las sucumbo
a esse meu interminavel deixar estar cansado


Paulo Baroukh 1997

Sonho bom

Um anjo bom me tocou na fronte
enquanto eu dormia
abriu minhas asas
ávidas de voar
e me deixou pronto para o mundo

Era grande
branco e azul
simultâneo
todo sorriso

Deu-me o dom da alegria
da música
e do amor

Sussurrando ao meu ouvido:
dorme, descansa
que a vida amansa
o tempo é rei
e o universo é maleável
ao seu comando


Paulo Baroukh 1997

Ato Falho

Sensações inundam minha alma
como gotas,
antes de tempestade do que de chuva.

Incessante dilúvio, tormenta sem aviso prévio.
Lágrimas internas de beleza e crescimento.
Quero explodir, mas implodo
ante a simples existência
de um ato falho.

Por demais humano, por demais insano...
Chega!

Deixa cair a chuva!
E molhar meus campos, derrubar minhas plantações.
Sopra, vento abençoado, destrói minhas cercas,
E me mostra, afinal, teu arco-íris.


Paulo Baroukh 1997

Mais do que falar de amor...

olhar em mi, afino
teu sorriso sendo um véu
numa terça precisa

ao m(e)olhar
teu olhar
transvoa

dantes nunca,
agora
para sempre

transascendendo

translucidando

sigo ando apaixonado
oxige nado
flutuarte
no céu da tua boca

memória eterna
da tex sex tura
dos molhábios teus
no meu corpo minotauro


Paulo Baroukh 1997

romântico

desabroxando ao meu toque mágico
mulher de força mística
se aninha em meus domínios
ao que digo sim

empresta uma pena de suas asas
e em sendo menina, deusa, mulher
desfaz meus nós
com a força desse amor

cuidado, delicadeza :
atributos especiais de maravilha
ilha de prazer
em contato direto com o universo oceânico

palavras nossas:
vidro talismã
orgasmo vagar
letras aventura
asa voar
livre paixão
tesão sabedoria

de mãos dadas, quentes
descobrindo juntos
o alvorecer de uma nova era
te amando desde sempre


Paulo baroukh 1997

Perda

É algo assim como estar perdendo a cada minuto
tudo aquilo que nunca se pôde ter,
tentar reter o todo, tendo o nada por ferramenta.

É algo assim como estar no vácuo
tentando se agarrar a uma barra de ar,
querer vencer o desconhecido, invencível.

É se estar apaixonado pelo mistério,
precisar dele como força vital,
e fazer movimentos para matá-lo a cada passo.

É montar uma égua livre, sentir-se livre,
e puxar as rédeas durante a disparada alucinante,
usando o chicote enquanto se quer parar.

É o desejo da morte do pai, cujo choro eterno é alento,
virado pelas noites,
acalentado pelos filhos.

É reter todos os grãos de areia,
de todas a praias, de todos os desertos,
entre os dedos perplexos de impossibilidade, deixando escorrer.

É a dor que vem, assim, sem querer,
por querer demais, por amar demais,
harmonizando esse grande todo,
pasmo ante a sua força,
deixando que o vento leve,
leve pra passear esse pequeno ser,
já não tão grão.


Paulo Baroukh 1997

Ponto

Apelo à minha pena,
nunca duas vezes a mesma,
porém a de sempre,
que traduza esse momento-portal,
que atravesso,
intradutível, fluente.

A resposta veio:
Meta-palavras,
linguas azuis,
sobre o velho papel em branco.

Na mosca.

Momento-portal,
turvo cristalino,
in verso,
verte suas inevitáveis águas sobre mim-rio,
fluente,
ávido de vida,
átimos de primeiros, de segundos, e de terceiros.

Idade, em tempos de criação,
espaço e territórios virgens,
solo de profunda atração.

Minério bem vindo. Um achado.
Um convite à vida.
Um som, um odor de novo.

Nesse ponto...
bem aqui !


Paulo Baroukh 1997

Semeio

Dez mil monstros fantasmagóricos
invadem agora a me assustar,
em forma de demônios alados,
nunca antes vistos por esta vista maldita.

Mas,
de repente...
Espera:
Deixam-se ver e capturar
a uma segunda vista! Deixam-se domar
por mãos experientes. Ah...

Então são todos velhos inimigos dormentes,
que ao acordarem tornaram-se amigos
benvindos,
braços e portas abertas,
e sobretudo olhos.

Consciência plena de uma sabedoria incomum,
surpreendente e bela.
Luz.

Sei que a guerra se dá por amor,
e por amor ela se dará,
nem vencida nem fracassada,
apenas semente;
sêmen de monstros e fantasmas,
tamanha a paixão humana desse momento.
Poder.

Convergências de uma vida,
todos no mesmo instante,
como se o verbo pudesse mesmo criar e destruir.
Criação.

Fraco e humano, repleto de súplicas,
a força, então, me toma de assalto,
e em me fazendo forte não me canso,
pois no teu peito jaz meu porto,
seguro ou não, mas perto,
e o alcançar serenidade em paz,
significa peito contra peito.
Gente.
Solto, para rodopios e saltos mortais,
digo sim a vida de inevitável viver,
e à claridade que me invade agora,
com delicadeza,
pedindo licença,
ao mesmo tempo que me rasga de paixão.

A verdade:
Não posso viver sem respirar
sem fazer-me em simulacro.
E a isso já disse que não.

Entre o vento e a chuva,
escolho o mar,
em suas ondas me acolhendo e expulsando,
como é de sua natureza,
e assim fazendo com que eu siga a minha,
inevitavelmente.

Sorridente.

E quando os metais ensurdecerem,
o fogo arder a queimar minha carne,
não sei como sei,
mas sei,
estarei salvando do afogamento,
um ser que grato,
me dará as boas vindas,
em sua casa nova, velha conhecida,
terna e revolvida,
paredes recém pintadas,
prontas para amar,
e também para novos e desconhecidos monstros.

Eles que venham.

Enquanto isso amo. no meio da guerra, no meio dos monstros, no meio da rua, no meio da praia, assim no meio de tudo, sendo eu por inteiro, sem meio.

Semeio.
Amo. Sem filtros pela janela dos meus olhos.


Paulo Baroukh 1997

Speranza

Pelas encostas do teu ser,
tuas mãos encontram a mim.
E subitamente perfumam,
minhas carícias.
Singular, jugular,
vontade de morder
a fruta madura,
gerada, inocente,
por uma paixão nada inocente:

I N D E C E N T E


Paulo Baroukh 1997

Visão

Um dia me chamaste Peter Pan
porque te amava
e pensava que se não te tocasse
seria a Terra do Nunca

Nunca mais te vi
mas te sonhei ao longo dos anos
te toquei, te amei, deliciei, idealizada,
congelada na goela de um crocodilo

Concordo agora como adulto
o vislumbre do avesso do que seria
me marcaste sempre
no meu corpo, no meu nunca

Nunca mais te vi gente
viraste fada naquele momento
em que com teus olhos azuis
me chamaste: Mágico

Ao desviar teu olhar se quebrou o cristal.
Nunca mais te vi refletida na menina dos meus olhos
não terá retorno aquele atelier de amor
não tocada, encantei-te, cristalizada

Lugar comum de um estrangeiro
sem terra, sem paradeiro.
Cristal amado despedaçado
em todas as mulheres que quis
refletido em todas tuas faces incertas
estilhaços infinitos da certeza que já tive
de quão mito era crescer

Cresci, criei, engravidei, virei pai
senti rodeios e farfalhares de fada ao meu redor
durante toda a vida
e se te vi em sonhos , não eram sonhos.
Era meu nunca
minha doce terra.


Paulo Baroukh 1996

anjo cego

Caído, passei de fã a anjo
adorei, cego, sem imagens
como um mito a perambular às soltas
sabendo-me humano, ilimitado enquanto vivo
aberto aos novos tempos, novos ventos
taurinamente seguindo pelas alamedas cibernéticas:

coração onde só cabia razão


Paulo Baroukh 1996

Claridade:

Pela última vez, mistério
pela primeira vez, coragem
de novos e infinitos mistérios
gelando meu sangue menino
num torvelinho de teus beijos e carinhos
que se dados ou não dados
já não importa...
nenhum mortal se daria a tal entendimento

Se me fazes, então, imortal,
sinto forças
e travestido de chips
me esgueiro como um gato a procura de teu afagos,
sem bips, nem chats
que de tamanha frieza
nos tornaram de uma calidez solar,
numa luz amarela e quente, numa eterna busca,
tornando minha mente clara
e meu coração limpo

É então que um imã me atrai, distraido,
sem trair minha confiança
me pega pela mão e aceita o meu aceite em seu sim

Venta em minha vida o vento quente de uma paixão
e para de repente:
Entendo que é a última vez que escrevo em tua direção
sem te ver na minha frente.

Um pouco feliz e um pouco triste
te abraço, te beijo,
e já se esvai em tuas duras fantasias,
um salto ágil, para a suave realidade.

Te vejo, te quero, sorrio,
danço, rodo e rodopio, mas...
muito prazer.
E me despeço de como nunca te vi,
para te conhecer em tua plena graça
e desvendar teus mistérios.

Deixo que sejas o meu segredo,
e que esse rio, inevitável, flua,
explorando desde sempre seus limites
até alcançar sua verdade, aconteça o que acontecer.


Paulo Baroukh 1996

Terça-feira, Março 15, 2005

Nau

Como é altiva minha caravela...
como finge navegar sem correntezas
sem vento nem intempérie que possam
em seu caminho se interpor

Como esta nau cruel pode cortar as ondas
mostrar todas as suas velas ao sol crú
e ela nua, no calor da batalha,
empinar a proa se impondo a Poseidon?

Pode tanto amar o mar
sentir-se tão a vontade em seu elemento
fluir e fazer-se presente como um eterno véu
impedindo que eu fique ofuscado?

Já cego, observo sua trajetória, e...
quem dera ser um peixe voador
e numa noite de verão, lua nova,
poder sempre recomeçar

Como pode ser tão altiva
ser tão preciosa
e ter tal poder de nau,
parando o tempo
fazendo noite virar dia
e desistir de tudo num átimo,
apenas para viver um grande amor?

Que longa jornada com minha pequena caravela
e que altivez, que privilégio
poder ter navegado em suas águas,
ter compartilhado seus medos, pilhagens
tesouros, piratas, monstros, ilhas, selvagens, vulcões,
mistérios e segredos que antes eram só seus
e agora são miseravelmente meus


Paulo Baroukh 1991

Mente

Minha mente turva-se
já não posso me lembrar
teu rosto, teu cabelo, teu cheiro
suor, olhar, mexer, brincar

Só lembro teu nome
símbolo eterno de criação
letras estranhas e sem sangue
coroadas de pleno devaneio

Sonho insone e gosto de álcool
fumaça e carinho na rua
luz do dia, medo, paixão
delícia das delícias

Escolha inevitável, a delícia suprema do ser
e repito entre frases brancas
crescer e ser livre
ouvir a voz da intuição
mas se ela tiver saído
usemos mesmo o instinto


Paulo Baroukh 1990

Véu

A imagem de um ser feliz
belo, a me olhar
sem dizer,
este veneno matinal,
entra...

Sonhei muito com ele,
vi luzes confusas,
lúcidas escuridões,
a dizerem coisas,
certas...

Se acordasse entenderia.
a imagem eterna
acompanharia minha mente como um véu,
acariciando minha escolha
por toda a vida:
ela seria meu segredo

A poesia me vem pronta.
sem choque, entra com carinho
amor e ludicidade.
movimento lúbrico, prazer pleno,
vento descontrolado,
existindo sem poeta

Um véu para os olhos,
por de sol e alva.
Um tigre branco, uma moeda:
Zahir, o Rei
Galadriel, a Rainha.
Gata princesa
seu cheiro, suas gatices
e então, tomo forma, tomo vida,
perco o sério, o sono e lembro...

O Aceite.

...e a saudade:
fica como uma pedrinha
preciosa na alma


Paulo Baroukh 1990

Segredo

Dizer não
dizer sim
não dizer nada
emudecer

Importante, simples e bom
adormecer docil assim

Adolescer sem adoecer
ou deixar doente quem
sem amarras, arestas, culpas
como se esta letra não fosse minha
e falasse por mim
sendo tão não-eu

Dizer crescer
colocar no lugar
o sim e o não
trocar de fantasia todo dia
tesão, sofrer não
emoção muita
sem ninguém perceber
música, letra
querer estar junto
e ter porisso no coração
um vento soprando no vazio
um verso sempre pronto
uma intensidade prá te agradar
antena sempre ligada
e uma vontade cumprida: seu segredo

Um menestrel em devaneio
a imortalidade do meu rio
do meu este grande amor

Leve e cíclico
ondas de radio
e o mar ciumento em maremoto
tormenta
Peço
eriça todo teu pêlo
presenteia com todo teu cheiro
e seu sabor ocre
teu suor e teu desejo que é meu desejo

Presença:
eu no mato
cada árvore é você
Tuas mãos crescidas, adolescidas
me fazem andar prá dentro desse tunel
e o dia virar noite
Qualquer palavra é pouco

Continuo vivendo o que viví
a cada segundo
que ninguém me tira
Não saio deste sono vigilante
mantendo meu prazer e meu desejo
como se o olho do furacão
se entristecesse pelo efeito de seu corpo

Há lugar para tudo
O cruel e a delícia de teus olhos
me olha, molha, provoca, invoca
turbilhonando meu ser
tornado menino
pela tua menina


Paulo Baroukh 1990

Morte

Uma mitológica criatura
com seu cinto de caveiras
pisava quebrando os ossos
se suas vencidas conquistas

Aos seus pés depostas
mil vezes mil armas derrotadas
e a recolhe-las e ordená-las
mil falcões predadores de corações

Sua boca, língua de mel
sorvendo o fogo
de brasas atiçadas
pelos seus lábios em ó

Seios em seu peito de dragão
clamavam por desafios
que em seu ventre consumiam
em atrozes dores, desamores

Olhos turvos amarelos maravilha
Dedos ornados de esmeralda
emanaram um dia raios de pureza
da flor de suas pernas torneadas
na divina marcenaria de Hefestos

E não lhe valeram vitórias ou conquistas
Sua casa ecoava o vazio,
e enquanto sucumbia à volúpia da solidão,
mercenária,
enfrentando tal monstro,
ia se tornando em mulher,
e ao fim e ao cabo, a batalha estava ganha,
pois finalmente conquistara
sua tão improvável mortalidade


Paulo Baroukh 1988

Chuá, Tchibum

Se te vi, ou não te vi
em sonhos,
é so questão de poesia

Te conheço, reconheço,
teus olhos, peitos e boca,
olhar ansioso
que não vem,
mas espera que eu vá

Nesse canto, nesse encontro,
que nunca houve
No beijo sonhado,
tomar nos braços que são papel...

Não faz mal e tanto faz

Te fotografo do vídeo,
que te prendeu, e nem fui eu
Aí te revelo, te amplio,
te mando uma foto,
e já não importa se te vi
ou se não te vi

Serei prá sempre o teu herói.


Paulo Baroukh 1988

Elogio a Borges

Noite pelas ruas,
já não se faz entender a luz
que projeta mil sombras
na calçada da cidade

Uma deve ser a minha sombra,
aquela que existe segundo
uma lei, uma luz, e um eu

Mas são mil,
uma a andar em linha reta,
outra bêbada cai,
uma é vil, outra viril
uma é negra, outra noite

Cada qual infinitos fragmentos
que sobrepostos,
formam única sombra,
portal de loucura,
se porventura transposto,
aterradoramente uma só seria

Tudo ou nada
Tudo ou um,
é questão de saber perder, saber cegar
Qual delas é a bela?
Qual a que me é perfil,
perfeita e pérfida?
O azul que voa ou
o mistério que desvenda?

Caiu o tirano da luz suprema
ao jorrar em mil versos, projetando mil sombras
E o poeta ainda anda altivo pelas ruas
sem pressa
como fosse um deus
como tivesse apenas
uma única sombra


Paulo Baroukh 1988

Estigma

O estigma a me olhar nos próprios olhos
alcança minhas pegadas
às quais quer pisar, sem falhas,
chegando exatamente onde estou.

Mais um círculo cumprido, mais uma vitória
em que se coloca o rei de espadas
seguido de um violento cheque-mate:
Uma longa jornada de trabalho.

À minha frente opções que não parecem me pertencer
E a visão que abrange mundos que não são meus.

Ceticamente chamo ao esquecimento
esse deus menor da paixão,
cruel demais por ser humano
poderoso demais por ser deus.

Chegou a hora. Cansei.
Cansado fiquei vaidoso
por acreditar que amanhã é outro dia
por ter a pureza de desejar
que amanhã seja melhor que ontem.

Hoje não existe.


Paulo Baroukh 1988

Fragmentos

Os cocos verdes pendurados
na cabeça do coqueiro
esperam amadurecer
para virar cocada
e ficarem penduradas
na cabeça da baiana

Cores:
Flores colorem a paisagem
Em seu arbustos amarelos
moram pequenos homens vermelhos

Prisão:
a cerca de bambú
mantém presa a Primavera
para que ela não cometa suicídio

Pena eu não ser espanhol
Poderia ao menos saber
que quando choro ouvindo flamenco
estou chorando de saudade

O sangue ferve, a chuva esfria
Quanto mais borbulha, mais chove
mais me afogo
nessa enorme mágoa
de não estar na minha terra,
mais me atolo
nessa saudade imensa
de não poder tocar as coisas que são minhas
através desse filtro sutil
que só a terra da gente dá

A imensidão:
como no sonho, um beijo
como no beijo, um corpo
como no corpo, o amor
e como no amor, um sonho
Ao mar este grande círculo
Amar

sobre o morro
e por entre uma e outra
copas de árvore
uma florida, a outra não
dá prá se ver o mar
que de tão verde
com seus cabelos brancos
em nada se parece com árvores:
muito mais velho é o mar.


Paulo Baroukh 1988

Lareira

Me encontro à beira da lareira
fugindo do frio insano e
uma gata perdida e parda
foi ficando

Chega perto, tem um olho ferido
Olho e curo solidário
Sentou-me no colo, agradecida
consumindo meu calor, pedia

Dei
foi ficando

Durmo distraído
com seu ronrronar macio
meu colo enternece

Viro na cama e acordo gelado
A gata na lareira apagada e consumida

Bem expulsa com um chute na bunda
e rabo quebrado, orelha ferida
foi indo embora
Deixo ir

Minha lareira
é que nunca mais se acendeu


Paulo Baroukh 1988

Urgente

o rubor de tua face
turvou minha mente

Urgente:

ficou no ar a semente
de um beijo de amor.


Paulo Baroukh 1987

Abelha

Como fazes para que o tempo não passe?
Como é esse teu segredo, essa tua lua?

Te amo sem perdão, sem perdição
sem grandes ansiedades
a não ser pelo teu sexo quente
tua frieza quieta e indiferente
até que me mordes
eu suplico, e tu te rendes

Finges que tanto faz
e faz tanto que enlouqueço de paixão
Tens o corpo de uma deusa
e a memória de uma pedra, imutável, insólita
Faz lembrar o tempo
esse teu jeito estranho de fazer amor
faz lembrar que o vento é azul
e a planície amarela, calma
clara e transparente, e eu
tua tempestade incolor

Bebe de mim sem fim
Aplaca tua sede de me contar
como é esse teu segredo

Te fazes num passe pequenina e fugaz
quando na verdade pretende ser imensa e eterna
Simultânea quer e me deixa
Me queixo, vou adiante
volto, provoco, te olho, te molho
me mordes e não queres
Suplico, e tu te rendes

Sem tempo ou desespero
se vão os minutos, em vão as horas
e lá estás, travestida de tua própria boca
toda boca, toda olhar
Me beija, te peço, pareço pedra, pereço
vem a onda e não suporto
amo tua força e teu desejo

Desejo tua primeira vez
encanta-me de tua louca
ansiedade de vida
tua vida, teu sopro
Tu minha luz, minha doce lua azul
Vermelha como repentina te fazes
e a esse teu segredo

Te arranco de tua paz
de tua alma calma, cálida, cadente
Nunca calas, dizes essas coisas
que me fazem sonhar teu sexo ardente
Mas negas, provoco, invoco
me mordes, in loco
te pego, num átimo, te viro, reviro,
te rendes, não suportando
teu próprio negar
amor desse teu jeito louco
estalam peles, gemidos de mel

Vai-se um momento, acordo e não estás
Me viro, grito, berro, desespero,espero,
num espelho vejo cabelos loucos
olhos procurantes, como antes, vago
notívago, bundívago, meditávago,
vagavago e tudo porque não estás
Pelos tempos vou vivendo
girando em torno de mim,inexisto
lanço vãs sementes ao vento

Vão-se os dias, down by the river side
e num lampejo menor que o momento
saio de mim, se abraçam, dormem, acordam, fazem amor
sempre daquele seu jeito louco
de morder, virar, negar e depois
se render

Eis que, então, com sua fúria, me pega carinhosa,
me beija os olhos cansados
como se soubesse de tudo.
Feitiço contra feitiço, atiço.
Sou de ouro e bronze, imponho
finjo não estar latejando
mas ela feiticeira que é, sabe:
Como é esse teu segredo?
Te amarei pelos tempos sem saber de ti.


Paulo Baroukh 1987

Minuto

sete minutos de um poema
é tudo que posso esperar
um passou, era uma bala perdida
outro, mais rápido, um sonho

um desejo frustrado, enxotei
um telefonema ,um relâmpago
vozes, ruídos..., espera! um caminhão
um pouco... passou

cigarro, copo, corpo, um papo furado
esvaziou
agendas, dias são um segundo
veio um amigo, estou trabalhando:
duas vias, um momento

isolado do tempo, vem um adjetivo fazer cócegas
rio caudalosamente, fluo como rio,
não queria essa velocidade, mas se revela
à revelia

Acabou..., segura...
passei a vida a esperar que se passassem os minutos
ou que eles não se passassem.


Paulo Baroukh 1986

Semente

Parado desde logo nos anais do infinito
posto diante de um oráculo
medito se o tempo pode tudo,
minha resposta:
Minha imagem refletida, distorcida, lúcida

Rogo, então, aos deuses do inferno
que o ócio nunca deixe de ser
e o movimento ilumine as águas
de sua suprema sabedoria:
uma boa troca

Aparências ficam rondando fantasmas
entre cinco paredes e um teto
assustam a novidade
num estremecer de paixão

Esses anagramas misteriosos, em Anas
e Veras, chegam arrebentando
perdidos entre tremas e reticências,
tramando o elo,
virando folhas sêcas,
fazendo doce de morango.

Nada que palavras possam traduzir
sendo lágrima e sendo mar

Vai no refluxo e segura
que a menina deixa
sua visão suavemente,
como em seu asfalto, uma semente


Paulo Baroukh 1985

Concha

Momento congelado
lado a lado o batimento
abatido, tido como som
sonolento arfar de um corpo
copo transbordante de poesia

Pois não, bela criatura
tua cura se interpõe
põe a mão singela e congela
o duplo de todo momento
o não movimento, vento
a boa palavra, para lavra
o signo postiço
um feitiço nos cabelos, um atiço
berrando contra o liso e macio
de teus seios brincantes sorridentes

Chama apagada apaziguada
chama minhas mãos em concha
que eu menino cato na areia da praia deserta
dentro da qual o bicho espreita

aí, me entrego


Paulo Baroukh 1985

Braços

Braços esguios causam-te o prazer mais caro
Teus dedos tocam lábios calados
ante o gesto delicado e perverso
numa maldade que começa a cada instante

Tua vida embala minha morte
cala minha noite, mata meu dia
arde na tua úmida tarde febril
julga a perfeição do círculo
assassina de sede o poeta
dando-lhe ausência
sendo-lhe o filho morto
a morada abandonada

Inutil qualquer beleza perante a tua
macia e floril dependência
Chorando e diluindo asfalto
no azul de teus olhos blues
frágeis como os ombros de Atlas

Caíram-me os dedos de carícia desvairada
uma segunda vez
a voz no vento, atenta
aguda, sêca, baritonal
projeto certo

Tenho sede,
e quanto mais bebo, mais me afogo
no doce de minha própria carne
sendo minha a tua lua

assim seja


Paulo Baroukh 1985

Segunda-feira, Março 14, 2005

Tango Triste

Fome de amor que me oprime
Sonhos de luta pela morte
O suicídio é inevitável
quando a música só pode ser ouvida
ao ficar vermelho o farol

Tranque as portas, feche as janelas
e a Espanha já não vem
Noites passam em branco e preto: sem sonhos
Aonde vais, disposição desenfreada
de sempre vencer?

Despojado de vida a morte não vem
nem volta a alegria
Mendigo da felicidade
a procura de um tango triste

Não quero me lembrar de mim
Ter passado não me apraz
nem futuro ou presente
Em tempo nenhum posso ser triste
visto que nunca o fui tão profundamente

Venha, vamos dançar, só esta música
descer juntos ao nosso inferno
depois esquecer, como se fosse possivel
bem no olho do grande furacão

É mais forte que tudo
esse desejo de estar no útero do mal
sem ódio ou razão, para cuspir-lhe na cara
Ser o primeiro a lambuzar os olhos
da placenta podre e maldita

E depois, tudo o que posso querer,
é o longo e colorido caminho
Ladeiras infindáveis
nessa estranha cidade italiana
encravada na América Latina


Paulo Baroukh 1984

Síncope sincrônica

Dois olhos negros
numa carreira desenfreada
passam por mim
para nunca mais

Seios duros
alvos como a manhã
Desejo fugaz e desespero

Nunca fui tão triste
por ser tão livre
tão feliz

Tenho sombras em sépia
com gosto de fumo e álcool
uma memória bastante clara que me engole
tão gasta quanto o presente:

Existe entre nós
um vidro tremendamente sujo


Paulo baroukh 1984

Precisão

o poeta não precisa
ter sentido.
não,
sem ser sentido.
o poeta precisa
ser sentido.
não
faz sentido...
o poeta
será preciso?
o poeta não precisa ser poeta.
o poeta é.

loucura, vontade,
medo, vaidade,
distância fatal,
vital aborto,
feto morto.
criatura querida,
incomodativa.
olhos vítreos
a olhos vistos.
violentos olhos
horrivelmente
lindos.
até onde lembro.


Paulo Baroukh 1983

The only one

Seja único
sim
lúbrico
lúdico
nem sempre lúcido
e consciente do fim dos tempos
because the world is round
e o amor é pouco
quando o acaso é muito
e o romântico impera soberano

Ratos, cobras
constroem um mundo falso
cadafalso
simulacro de felicidade
abismado
de faces contraídas de solidão
abençoando, trêmulos de emoção
este momento de plena grandeza,
força e poder
ser

Seja único sim
cordão umbilical das profundezas
observando
por trás dos olhos
das mentes
das mortes e dos ensejos

Desejo vão saúda novos tempos
de braços abertos
feito tamanduá bandeira

Never more é o que diz o passado
inviolável
invólucro de pedras nos sapatos
vistas luminosamente
a olhos vistos
violinando o solfejo do porvir

Significa que haverá sobreviventes
entre os indigentes
e mendigos da felicidade
mal alimentados com migalhas de cor
através de uma íris manejada
por insanas mãos
incorporadas à ação primeira

Fica combinado assim:
be the only one
e não se fala mais nisso


Paulo Baroukh 1984

Momento

Foram-se purpúreos momentos
anos perdidos e vividos
outros belos ou putrefeitos

Engana-se com velocidade
toda uma gama de instantes sobrepostos
a vinte e quatro quadro por segundo
numa belíssima ilusão de ótica

Assim fluí ao inconsciente
e com ela,
o medo de quem a cantava
foi ludibriado por uma linda melodia

Sem que se sinta a morte de perto
passa a existência de grama a tonelada
e todas as penas do mundo parecem
uma grandiosa tempestade calada

Até amanhã, essência desgarrada
A nunca mais, palavra condenada
pois que a vida vigente consiste
na perda da memória
e numa fútil beleza aparente

Qual dentre nós terá o dom da realidade?
Temos todo o tempo pela frente
e num dado instante
a cultura nos fará jogar a nós mesmos abismo abaixo
só para saber se a dor é ou não verdade


Paulo Baroukh 1984

Metamorfose

Mudamos muito desde a última vez
Se você lembrar eu lembro
se esquecer também
pouco faço

Só aconteceu na memória
meu desmemoriado amor
de batalhas travadas
de trovas entoadas
de homenagens cíclicas
ódios perdoados
e amores abrandados

Somos tal e qual o universo
que de falha em falha
de falta em falta
de verso em verso
não passa de mimetismo,
simulacro da palavra


Paulo Baroukh 1984

A lua repentina e amarela

Seres que ignoram seu destino,
estamos perdidos
eu e você.
E meu amor,
minha asa,
meu canto,
meu lápis,
e meu lamento.

Lamento muito,
e a lua cheia
lá em cima do céu,
branca branquinha,
perdeu todo o sentido.

Baixou por entre os edifícios
da cidade.
Tornou-se branca e amarela
como um imenso queijo bichado.


Paulo Baroukh 1984

Lilás

Óh, linda e lânguida musa,
não sejas assim tão cruel
que tua passionalidade me espanta
de medo e frágil lua.

Mulher,
calor do meu corpo,
calar de minha mente,
cor de minha vida.

Mulher,
acarinha-me quieta,
que a noite canta,
molha, goza e rodopia,
mas não te faças cega,
que meu amor latente é sombra,
e minha emoção o universo,
verso.

Pretenda a estrela do olhar-as-vezes-doi
que minha torre te alcança
e não cansa de vêr-te
nua,
querendo carregar sobre os ombros
o peso do tempo.

Acima de tudo deixa
que teu cheiro penetre minhas narinas
possuindo assim minhas artérias.

Ah, menina, não sejas asssim tão lilás
que meu corpo te deseja,
minha mente não renega,
e meu amor não resiste;
mas assim como aos deuses
eu o sinto
entre uma bruma e outra,
vociferando tudo que já ouvi e neguei.

É então que fecho os ouvidos,
e em fechando, abro os olhos,
e vem tu,
e vejo a cor,
saber ser,
que para se matar o ódio é preciso,
ainda que dolor,
matar este amor,
exigindo como prova consequências
e como novo a amora.

Mulher, namora que o tempo leva,
lava teu amor,
teu suor,
teu ser,
para que teu corpo seja como o universo
onde tudo cabe
e onde teu carinho se transforma
em ti,
contente por não saber em quê,
que volta em cada noite fria
para os meus braços,
e em abraços,
momento,
não quero mais saber,
apenas beber teu néctar de deusa
que ressucita o antigo
e faz do novo o que ele será

Continua mágica, mulher,
que tua cor me basta,
e depressa saiba:
Ela não é só tua.


Paulo Baroukh 1984

Impressão Estelar

Talvez sejam pés porque andem
a infames metros por segundo
entre colunas, pátios e fontes
derribando toda a audácia primitiva
de camadas sobre camadas
deixando menos que pedra e areia
sem ruído ou melodias
parcas de desejos violares

Pés de mulher é o que são
com purpúrea morte estampada
de sardas sobre rocha
liquidez impura e profana

Se sereias ouvires, som encantado,
derreter a cera é o que te resta
Entre sonhos e pequenas letras raras
derramando a trinta quadros por segundo
toda a velocidade ilusória das cores

Moda ou não, encantam-me cabelos ruivos
domesticado fogo do saber
vento escorrido pelo paraíso equino
musica pseudo-silêncio
de luz morena e ardente

Na possibilidade de ver onde nada há
e nunca houve
o olho tétrico da paixão
muita água e solidão
lapidar paródias reais de vidas absurdas

Não te sintas tão só por pensar a solidão
pois que a lógica do universo te acompanha

Acabar e não saber o que se fez
congelando momentos sucessórios
num filme lambido pelo sol que o vela
O que não se guardou na memória está puro
perdido para sempre

Essas coisas não se querem: existem-se


Paulo Baroukh 1984

História

Tenho a história moderna prá contar
A criança é pouca
cada vez menos
A terra do sempre será
essa vista devassa

Um broto já tem deus
temível, reverenciável
de belíssimas cores e aparência
mas assassino da imaginação
Um metaforicida

Prá onde nos soprarão agora
essas mãozinhas ávidas de vento
Vales?
Mitológicos, antropozoomórficos
Formas traiçoeiras, estranhas

Derramando leite-mel
pelos olhinhos fogosos
luminosos, sem luz própria
de ópio novo
Nuviagens desvislumbre

Um código moderno em nome do progresso
prá eles-nós mortos
sepultados de ambiguidades
epitáfio eletrônico
com ouro entre os dentes
e metais entre os dedos


Paulo Baroukh 1984

Grito

Grito hipnose rasga-me a mente
sereia de impossivel beleza
paira serena sobre rocha incandescente
atração de impossível não
loura de vidro e de fogo
corpo moreno
pele-convite ao jogo

Uma zoo-metade indivisível
vem de encontro ao desejo
de minha sede de sal

Então: amor sobre cascalho areia

A outra metade torna-se homem
peixe de beleza apenas possível
transparecendo aos olhos azuis
belos, somente belos
numa ardência, num derradeiro gozo
numa falta de ar

A semente sobre-humana diluída em água clara
vai com a maré banhar o mundo

O homem cansado, porém triste
veste seu chapéu de palha
berra seu corpo contra a pedra
e só vai-se embora
serpenteando sobre suas pernas


Paulo Baroukh 1984

Gato

um Gato cantava sob o sol
olhos sobre o sol, sombrios
porém ébrio de luar

o Gato contava uma história
de uma infância triste
gasta e amarelada

uma Gota caiu sobre esse Gato
tentando matar o felino de fragilidade
por falta de memória

a Gota caiu inútil sobre o mar
fez parte de onda e maresia
maré baixa e tempestade

um Gesto emitiu sete mil vocábulos
encabulados perante a beleza
de uma única e singela imagem

o Gesto saiu de casa amargo
naquela tarde chuvosa
desintegrando-se em cinzas lágrimas

o Gato caiu da cerca que o cercava
sobre a Gota desavisada
que fez parte do mar
e num Gesto nobre e onipotente
bebeu a água toda todinha
gerando lágrimas de sol
de solidão
e de tempestade em copo d’água

enquanto isso
ficava na boca
um Gosto amargo


Paulo Baroukh 1984

Frágil

Pela força de tua fragilidade
e minha imagem multiplicada
para dentro ao infinito
Pelas mãos em volúpia
calor e calar da mente
e mente ainda que tardia

O sol torna e a tudo encarna
tudo em carne e fogo
Um ombro uma cabeça
um som um assombro
repentina volta-se num olhar
subitamente úmido
claro cristalino
e a confusão do impossivel não

Reconheço-te, então, como mito
como deusa, como mulher

Minha mente menina alucina
entre helenas, sereias serenas
ninfas, minervas e medusas
Já não pode entender
mas estendo minha mão
sobre tua mão, sobre teu sexo
em infinitos sacrifícios da carne
num êxtase mortal
lubricamente tornados em veracidade
em amor e morte amordaçados
em prazer e dor amortecidos
sendo todos os homens
e antevendo entre um gozo e outro
que não és todas as mulheres

Enaltecido pela posse dúbia
enganado de comum acordo
numa cumplicidade sem fim
eternamente aceito e me entrego
perante a força de tua fragilidade


Paulo Baroukh 1984

O esquilo e a rã

Um pequeno animal encontra seu lugar
onde sempre gostaria de ter estado:
por trás dos olhos das gentes
misto de pavor e prazer
em conhecê-lo

Sempre escondido nos recônditos da Terra
sincero pelos olhos
catarse de um mundo em chamas
verdejando as colinas do desespero

Diálogo inesperado:
esquilo esquisito escreve suas memórias
em folhas de amoreira
proeminente dente de leite
amora não madura
semente temporã
e a rã sorrindo do destino
ri que sabe das letras
por não saber juntá-las
e formar a mágica da palavra

P o e s i a ! diz decadente
ante a beleza
da cauda castanho-clara do esquilo esquisito
fazendo cócegas
em suas saltitantes perninhas de sapo


Paulo Baroukh 1984

Dois Pontos

Um sujeito barba está aí
bem sentado à minha frente
e dentro dele a morte passou raspando

Fala e mais fala
de repente para:
Começa a sonhar seu latim
_______________________________
A musa dança
repentina cansa
Manca de uma perna, a infeliz

Discorro entre duas lágrimas
a angústia de não mais
poder ser mais
_______________________________
Tenho um guarda chuva
detesto sua alça
e o seu motivo:
a falta de um teto

A Hipotenuza é aquela que olha
o ângulo reto
e o cateto adjacente
discordando do ângulo em questão

Odeio esse guarda chuva hermético
por ser ele tão, mas tão geométrico
_______________________________
Descobri uma palavra
sibilante sílaba singela
cuja simples pronúncia
é prenúncio de paz profunda

Depois eu era um pássaro
que decai desacordado
Então tentei a vã memória
do grandioso som translúcido
Mas eu já tinha acordado


Paulo Baroukh 1984

Sono

Enquanto você dormia, eu sonhava
se podia querer
via sons de meus acordes
sobrevoando seu sono, sonho

A música te dizia: dorme
acordar agora seria complicado demais
No mais não escrevia nada de novo
apenas discorria
entre seus sonhos de menina

Procuro, então, em vão
que teu sonho
me ponha a sonhar
e me mande dormir

Mas o sono não vem
e percorro uma página branca
já maculada de história

Será que a palavra não diz nada?
Será que deveria dizer?
Velo, então, teu sono
sonho mudo e silencioso

É madrugada, ainda dormes
No infinito de teus sonhos
vives a poesia cansada
do meu amor por tí

É madrugada, ainda foges
No meu amor vitral colorido
de contas de vidro
Te vidras no amanhã
do meu amor por tí

É madrugada, ainda corres
pelas planícies rochosas
da vítrea vida
Dormes, foges, corres
as cores do meu amor sem fim
por tí insone

Por tí velarei de mãos dadas
e nossos corpos se colarão
e acordados, e misturados,
se atracarão pela manhã
unidos pelas dores de dormires
cores de correres
fogos de fugires
amores de me amares
no mar amargo
da minha solidão da madrugada

E mesmo assim, ainda não dormi.


Paulo Baroukh 1983

Trilografia (Edgar Allan Poe)

Um processo fotográfico
revela a alma do poeta:
é o contriste
entre o preto e o branco:
palavras negras sobre o papel


Paulo Baroukh 1983

Mestria nas artes

Sons palavras imagens
em sensíveis reviravoltas
de um corpo cansado
latente de criação

Monstros revoltados
sensuais ninfas
gnomos flutuantes
a realizar desejos

Elfos e flautas
duendes verdes
a bailar nos céus
da muda verdade amiga

Noites solitárias
ébrios pesadelos
de amor e morte
e dias salvadores

Horas de vida intensa
morbidez colorida
de luminosidade indefinida
e personagens desesperados

A tradução do universo
lida e parada no tempo
parado na linguagem
da maestria nas artes


Paulo Baroukh 1983

Flash

Rodopiar de estrelas
Furacão
A bailarina dança
num céu de amoras
silvestrando a boca
dos olhos parados: ser

Olhos atentos para o desfecho
da obra da mente humana
Movimentoada
Mulher de toda mente
de todo corpo

Entranha no centro do mundo
um palco qualquer
Fundo, mais profundo
que a lingua inocente do primeiro beijo
trêmula ante o parto do primeiro poema
parafusa, confusa, rodopia

Minhas imagens começam a dizer
e a poesia não parou
Traduz toda a cor do mundo
toda angústia e amargura
que a poesia não pode mais

Flash

Chuva, noite, solidão
fantasmas amando
à luz da escuridão
de uma foto sobre a mesa
amarelando de dor

Flash

As noites do dia chocam-se
aos meus propósitos insanos:
Dar à luz a uma infinita paciência
Flash
Imortalizando e capturando

Flash!


Paulo Baroukh 1983

Dias

Ah, que eles passam por mim
e cansam terrivelmente
Que são frios e ensolarados
como num tempo distante
morto entre os mortos de minhas guerras
Trazem consigo odores
que tento sentir... é inútil
Trazem cores-sentimentos
nomes-crimes, dores-façanhas
e toda uma avalanche que não identifico

Ah, que os dias têm cansado
e passado...
Que eles têm desesperado
viva a lembrança
A memória prega peças
e dança e passa e cansa
Esbarram num frio
perigoso demais para se ter força
para continuar

Ah, que essa memória mata
e dança e canta
e passa e cansa


Paulo Baroukh 1983

Contemplação da luminosidade

Em condições de luz
o escuro não
propaga linhas retas



Paulo Baroukh 1983

Alice

Alice é uma garotinha
como todas o são
que passa por mim
e simples sorri
com seus cachos dourados
e sardas como o chão
de um teto recém pintado


Paulo Baroukh/1983

Domingo, Fevereiro 13, 2005

Prólogo

que luz, que clarão que é um papel em branco na frente
e um monte de histórias atrás.
feliz da platéia esperando minha genialidade
bem na hora que deu branco.
como será que se chamarão esses versos
sem métrica e sem fim?

quisera saber ler em árabe,
escrever em francês, pensar em inglês,
qualquer língua que me faça esquecer a minha e a sua,
com a qual aprendi a sentir,
mas jamais a pensar e ainda menos a sonhar.
sonhar é mais fácil em alguma língua misteriosa:

invoco a rima, o ritmo e musas bacantes e bacanas.
poesia é só escrever com liberdade.
mentir bonito pode, falar a verdade não.

o que pode é criar, isso dá o que falar.
já pensou que perigo?
ser diferente da maneira que todo mundo espera que eu seja...
que coisa mais suicida e mais igual.
poesia é como tirar a roupa:
na vontade do outro e na saudade do um primeiro.
nada científico, e sim coloquial.

cada palavra é uma valise erudita,
sem alça, pesada, carregada de falta de sentido.
de que vale poder brincar com as palavras?
plantar livros, vídeos, filhos e uma árvore?
isso eu já fiz. posso ir embora?
não, é claro! que isso ainda valha.
e essa maldita veia lírica sem nenhum valor nesse mundo...

fantasia pode, mas só na fantasia.
fantasia fora da cabeça é loucura
e loucuras são duas liras nuas: a veia lírica e a veia trágica.
qualquer boca diz que gosta de poesia e não de loucura.
quando é só uma questão semântica. ou semêntica.
o que brota primeiro?
tem que esperar a árvore crescer pra ver que fruta dá.

bonito se falar em desejo. lembro do Stalker,
onde a promessa do desejo virar realidade = paralisação.
só Tarkowsky se movimenta a 24 quadros por segundo.
realizando meu desejo, nunca soube de mim.
mas seguirei buscando aquele frame de vidro-água,
ventando parada dentro de mim e para sempre impronunciável.
talvez alguma coisa se quebre, talvez nunca.
que coisas ainda há pra rebentar mundo aqui dentro?

deletar: que verbo é esse? que ação é?
deleitar ou ditar, deitar ou datar, dotar ou deter, sim!
mas deletar?
depois sou eu o diletante, o prediletante,
o dilatante, erótico e herético.

um CD no drive é pura holografia de notas musicais.
o todo contido em todo fragmento
objeto lindo, taoísta e colorido.
toda música sempre foi balcânica.
com gente tocando todo tipo de corneta,
batendo todo tipo de tambor,
gente comendo, dançando, cantando, trepando,
brigando, gritando, sofrendo, gemendo, rezando...
messias vai chegar ou vai voltar?
a questão é semântica.

o que nos vale é a espera paralisada
de que o frame primordial se repita.
o todo em todo fragmento.
o vento em still. o aleph.

e ninguém vai ler essa porra toda
a não ser que me vença a vaidade.
além disso o final só pode chegar agora
porque senão ninguém lê até o fim.

e é agora que começa.


Paulo Baroukh 2002/2005

Domingo, Outubro 17, 2004

Ludicidade

LUDICIDADE
LUZ DE CIDADE
A LUZ DISSE À IDADE
I N E X I S T A !
...e o tempo morreu


Paulo Baroukh 1982

Sábado, Outubro 16, 2004

Maraberto

Maraberto até o limite da baía de mato a mato,
imagens cinza-coloridas de suaves navios no sutil horizonte:
Aquele de meus olhos.
O sol foi passado pra trás.
A chuva cai em cristais de neve
e o vidrespelho translucida
uma imagem distorcida,
visão bela e torturante:
A praia cinza chuvosa.

Os tempos passam pela mente
sem que se possa distingui-los.
A memória auto-desligou-se.
Apenas sinto, minto, olho e sinto.

Cercado de mato
e mato,
um lado,
o outro,
em frente o mar
de cinzentos horizontes
e seresibilantessobre:
as ondas brancas apesar
do azulado prisma da chuva.
Atrás não sei,
não olho...

Sei que chove. não vejo. sinto semincor
o mar cinza-verde-reflexo do céu,
o mato, os montes verdes tornam-se negros
à medida em que o olho vai indo
em direção ao
F I M.


Paulo Baroukh 1982

Sexta-feira, Outubro 15, 2004

Meia Dúzia de poesia

Poesia
Por essa eu ia
à ilha de mar
entre vertentes
daquela montanha
Encosta na ponta
do universo
do verso
Desponta no centro
da mente poeta

Poesia
Eu vi que ela sorria
ao ler o verso
ia de um mundo
a outro mundo
sem tocar no buraco
do abismo encarnado
amarelo que existe
atrás do branco
do céu

Poesia
Seu nome se esconde
por trás da palavra
num misto de mágoa
e natureza
Como o sol
poente quente
por trás da montanha
verde negra
Poetristeza Poe

Poesia
Então foi assim?
Ego volatiliza
supera o inconsciente
e o verbo
magicamente
cria uma mente
palavrasons
um após o outro
mundos e mundos

Poesia
Pessoa sabia sair
sozinho só pra ver
e a visão escrevia
com o nome Alberto
nome inútil
Uma pessoa
Um Pessoa que sabia
deixar de ser
Transcender

Poesia
Criação magicanárquica
Palavoadora em
arecintilantes i
ventros leventualmente
verdelhos e azurelos
T r a n s l u c i d e n t e
Parente do espontaneóleo
Idade zerinfantil
Madura mente poeta


Paulo Baroukh 1982

Quinta-feira, Outubro 14, 2004

Pântano

Por trás daquele pântano
sobressaem seres mitológicos
gritando vozes fúnebres
som logicamente lírico
formando um vento poético

O ar torna-se azul-sintético
misturando-se ao verde-máquina
do sol na névoa métrica
formando outro vento poético
de seres verde-logicos (mito?)

Quando os ventos ficam túrgidos
de cristais de neve gélidos
encontram-se num violento ímpeto
letal de leves e rápidos
rumores infantis mórbidos

Após movimento fálico
encontra-se uma poesia lúdica
sem métrica, insólita
sem lógica, incógnita
e o sol tristemente adúltero
fazendo doces cócegas
no céu da boca do cérebro


Paulo Baroukh 1982

Quarta-feira, Outubro 13, 2004

Eu e Prometeu

A MORTE VEM E VOLTA,
LEVA A LUA PRA LÁ
A NOITE MORREM
O VAMPIRO, O LOBISOMEM,
TODOS FOGOS
DADOS ADULTERAMENTE AOS HOMENS
PELO TRAIDOR DOS DEUSES:
P R O M E T E U.
O IMORTAL FICOU ACORRENTADO
PELO RESTO DA VIDA,
E OS HOMENS COM SEU FOGO
QUEIMARAM-NO AINDA.
OS DEUSES MORRERAM DE TANTO RIR.
SOBROU UM QUE
ATORMENTOU POR ALGUNS SÉCULOS,
MAS VOLTANDO A MORTE
MATOU-O TAMBÉM.
FICO AGORA CONDENADO
A FORJAR PSICOGRAFIAS AOS DEUSES
E ANUNCIAR SUAS MORTES
E PROMETEU QUEIMADO ACORRENTADO
A FESTEJÁ-LAS
E A DAR PRESENTES ROUBADOS
AOS HOMENS.


Paulo Baroukh 1982

Terça-feira, Outubro 12, 2004

À MORTE

sinto o cheiro negro da morte
que passeia sem coragem de lutar
e a levar a vida pouco a pouco
em bocados grandes ou minúsculos:
qual a diferença?

mostra-te covarde ou refugia-te
na sombra que é teu lar.
leva inteiro o teu quinhão.
junta teus pedaços
e recolhe-te ou à vida

faz direito teu trabalho,
apesar de o teu mestre
já ter sido subjugado
no último de teus passeios.

leva inteiro o teu quinhão, desvairada
e deixa que viva ou morra
livre o poeta,
pois que assim se fará
mesmo que não o consintas,
pois que a partir de já
poesia e liberdade
são irreparavelmente
irreverentes sinônimos.

vai, volta e faz bem o teu serviço
desgraçada, condenada
bem-vida e abençoada.
teu trabalho é eterno e sem descanso.
aproveita bem enquanto te canto.


Paulo Baroukh 1982

Segunda-feira, Outubro 11, 2004

Olá

olá sonho obscuro de fantasia precisa
sono escuro de fantástica luminosidade.
olá flores da poesia universal
vida de homens e homens e homens.
olá cheiro de solidão arbórea
sombra da criação natural dos deuses.
olá pré-história mistificada
não te conheço de algum lugar?
ou será de algum luar? algum sol?
olá galáxia adormecida pela ignorância
inevitavelmente vista por não olhares.
olá meu amor.
então esperaste mesmo por mim?
espera não vã como podes ver;
voltei e posso andar contigo
e com o universo.
agora sou teu e dos gases humanos
que nunca deixam de estar à espreita.
olá emoções humanas,
mito de quem não pôde renegá-las.
não tenham mais medo de mim,
não sereis mais expulsas do santuário
que para vós é meu ser.
fica sem medo, ser humano,
que decidi voltar e aprender.
olá homem!


Paulo Baroukh 1982

Domingo, Outubro 10, 2004

Gestação Primeira

A gestação foi longa.
Nem o vento
nem o tempo
acreditavam mais
que fosse nascer

A flor e o sol,
esses sim, forma fieis
à antiga profecia
feita por um oráculo
abandonado pela luz

Hoje nasceu o fruto da esperança,
da criação e da solidão.
As cores podem voltar agora.
A escuridão pode ir com a morte.
Hoje nasceu o filho do poeta.

As conchinhas do mar sorriem,
a lua brilha incandecisa,
o dia se consome e volta sempre,
a noite assobia um frio vento,
todos saudando o filho do poeta

Os dragões ressuscitam
e todas as feras também.
Todos sabem saber do filho,
folha primeira
de uma árvore inteira


Paulo Baroukh 1982

Sábado, Outubro 09, 2004

Tem Poesia

Tem poesia
na desarmonia do tempo
dando ex passons reflexos
deixando trilhas borbrilhantes
na areia que o vento trouxe

Tem poesia
no silenciosom
que vem depois do amor
vento quente
corações diz parados

Tem poesia
no fim de toda poesia
no fim de cada sonho
no fim de todo desejo
no fim não fim

Tem poesia
nos passarinhos colores
cantarrolando melo dias naturais
consecutivamente enlouquecendo
o não olhar furtivo:
meus alienados ouvidos

Tem poesia
tempo ex ia
estragar uma vida
antes que a ludicidade assassina...


Paulo Baroukh 1982

Sexta-feira, Outubro 08, 2004

Pedaço de mundo

Pedaço de mundo fora do mundo
Ventotal solindo cheiro de chuva ausente
Pássaros dizendo para continuarmos

Mar avilha
A vidamando seus olhos
Sol o de guitarra
Cigarra chorando sua solitária inveja de nós
Ar repios insanos de natureza
Beleza e amor

Tempo escorregando no ventormentado
Revoltado ante a espantaneidade
Que só ele havia conseguido antes

Obedecendo à emoção
Aos instintos do amor
À paixão lúcida
Lúdica
Agredindo o mundo dos homens
que ainda precisa pensar
antes de sentir
amor


Paulo Baroukh 1982

Quinta-feira, Outubro 07, 2004

Paralela

Paralela
Aventura viva
fora da vida
Fim de sespero
espero chegar vivendo, viu?
Vendo
Ouvindo, mexendo, bulindo, brincando
Fazendo cócegas,
morrendo de rir.
E não me façam rir,
deixa que eu mesmo faço

Ser um ser gente
sim cero
sim crônico
sim gelo
sim pático
sim fônico
sem ente da vid amor

V entre paralelas
largado um corpo
ocioso aparente
contra o tempo

V irado pela falta de luz
do mundo moral
através do escuro espaço
dos seus surdos olhos

V entre mentes paralelas

V ELOCIDADE
LUZ
T
R
VIDA



Paulo Baroukh 1982

Quarta-feira, Outubro 06, 2004

Só na sina

Sou no sono
Só na sina
Só não salto se me sabem ser
Sol itário
Liber
idade

Cigarra solta
Solta seu sibilante som
Solitário
Só se o Sol se esconde
Segundo a lei do Vento:
depois do cansaço
da assombração do Céu.


Paulo Baroukh 1982

Terça-feira, Outubro 05, 2004

Palavrasa

palavras mortas

palavras mortais

palavras tortas

palavras mentais

palavras lentas

palavras letais

palavras fetais

p l v r s tentas?
a a a a tantas...

ASAS
ASAS
ASAS

PALAVRASA


Paulo Baroukh 1982

Segunda-feira, Outubro 04, 2004

Amalvorecer

o amalvorecer drouce odorífero d cigarroite
pernida dias dor demo do termor
luz cintrilante cinzindo de amor e prazer
maluco malogrado malarmado e outros males a manos
insono sano d loucuridez fumastiga o cigarrete
vemita e o pessado apaguado lê:
apaziacuado felsamente osfusca os olhidos surgos
d arrumor e prazir afumascado
fumagindo da dor
irrando d prezar colorindo
a tranparescência fogaz do soucídio

vinda a morte sossego e benitude
aplaca a sede malurgida d venenículo inóculo
bem vinda la muerte malvenida
malouca malente salude saudade...

apega tudo, louviagem sirebral solitárica
pelos insectos infetos
da rima sonora daquela saudade...
inodora incolor
colorida de translucitez

trancandência d uma vida mirrada d fora
mas angústia não identificada
vulcando a lava incandecisa
pelas enqüestas de meu sour.


Paulo Baroukh 1982

Sexta-feira, Outubro 01, 2004

No campo

No campo,
no calor das cerradas pálpebras,
acirrada ouço a sua voz,
depois de viajar pelo espaço,
atravessar um satélite,
ricochetear em outro
e chegar aos meus ouvidos de olhos fechados.

Na casa
o relógio parava;
tiquetaqueava sem parar;
marcava o passo
compassando de um signo a outro
sem nunca parar,
pousado sobre a mesa às moscas,
defunto que era o velho.

No campo
os olhos se abriam,
o sol ofuscava,
e nas manchas verde-metálicas
eu via em você a fonte da voz.

Na casa
a mosca morria
vítima da mola solta
do morto menosprezado
perigosamente inerte.

A máquina retrocedia e sofria os dias
do nebuloso mas vivo passado.
O defunto era levado
chorado pelos parentes.

O tempo correndo à velocidade dos sons
taquetiqueava seu sofrimento.

O campo explodia em verde...
depois em vermelho...
num vulcão cheirando a assassinato.


Paulo Baroukh 1982

Sábado, Abril 10, 2004

Asa

tenho tripas cansadas
dentro de mim sou nômade
sinto o lugar com selvageria
a violência inconseqüente
num cuspir pra cima
artérias poéticas
correndo rio abaixo
as letras: inevitáveis palavras
tenho paixão
amor é reles palavra
deitada a beira do abismo, gargalhando
um raio de sol queima demais
um singelo e desprevenido ai
torrando cérebros mortais
fornecendo aos sete sentidos
a água milagrosa
que dá à luz ao morto
atormenta pela ausência
tristeza
temporal em número e grau
sem corpo espacial
mortal e passível
de dar náuseas ao lembrar
minha vã mortalidade
vivendo ao norte do Olimpo desses versos
semi deus mudo
mundo relativo à velocidade
que não é pouca:
aumenta na tonelada do tempo
tenho em azul nas penas
a rouca garganta incansável
perante o infinito
da sexualidade do universo
sede de contentamento
satisfação não obtenível
inatingível por meios lícitos
numa moral que com o tempo
esmorece emudece amarelece
como é de sua lei
vivendo taquicardias
tecendo tolas teias
gigantes e insuportáveis
negras letras dançam marcadas
sem passividade teatral
nem atividade atômica
apenas palavras palavras palavras
elevadas à potência nove
sem destino com clareza
erguem-se sensações metropolitanas
no caminho arborizado
inconecto e real
néon perdido entre elos magnéticos
reluzentes de energia latente
algo prestes a explodir
emersão dúbia: uma palavra, um anagrama:
ASA
são duas
uma que sobe outra que sabe
ser menos amarga
é o que pedi ao muro de gases
humanos que me cerca
a cintilância dos olhos amigos
prazer supremo
mandamento não mencionado
ardil esperteza mosaica
daquilo que leva à morte a ação:
A ASA
e neste vôo levar tristezas
para além do esquecimento
olhar luminoso
deixa-me descansar em tuas lágrimas
que choram por ser
simples e pura mente mortal
voltar ao início dos tempos
encolhido em tua cintilância
mas deixa-me ser só ser
o teu desejo mais profundo
se tiveres um dia a coragem de sabê-lo
apagar o fogo dessa angústia
sem matar
apenas manter apagada por uma noite
de puro extremo amor tremor:
PALAVRA
passado o refluxo ressaca estou seco
tentado pelas sombras das nuvens
a sair do limite físico
passar à eternidade catástrofe epigráfica
catártica em sons e imagens
alcançando a profundidade da nudez
magnífico cenário
de uma infinita peça inacabada
como é de seu inevitável desejo
como é de sua inevitável verdade:
perfeição
profecia: a morte da palavra
milhões de palavras a rirem do destino
do profeta
monstruosas no sonho
em que se tivesse descoberto
o segredo da criação
porém de impossível lembrança
visceral
como raízes da raça
negro noite é a cor do fantasma
que convida a beber ao esquecimento
este ser:
a mais profana arte
de que se tem notícia
talvez exista sem dúvida por isso
não temos tempo para sentir o cheiro
vermelho de suas asas quebradas
lamento mas te amo
apesar do viscoso que tua alma exala
não não não
sete ratos perdidos no esgoto
da pré-história
fazem apenas parte da histeria
número-musical deste século
o mal agora é outro e abocanha males
de todos os séculos: vanguarda
transportada para outro espaço
levou minh’alma de marginal
no olho de seu furacão
para a cidade de fogo e pedra
reflexo dos raios de sol
no espelho sideral das galáxias
das mentes ilimitadas
que já não dão o prazer de sua presença
já que assassinadas em guerras santas
vãs por definição de sua vã mortalidade
vômito morno deixando isso de lado
fugindo das tripas cansadas
tenho um testemunho de deus ao vivo
que rege minha fé no infinito:
pode-se dizer que tudo vai bem
só que estou sangrando
porque está escrito
e já não se pode discutir com palavras
quando o sentimento voa
e não volta mais
assim o sonhei
numa partícula acelerada
por um canhão de palavra suprema
e assim voei
quando energias libertadas
poesia eminente
lamento mas tenho a pior das chagas:
o esquecimento
mas dizem que mesmo assim
deve ser divertido
leve como asas sem dono
sem caminho ou direção
a criação assim inerte
sobre a mesa da liberdade
por via das dúvidas
pois ali ela ficará até o final dos tempos
sua causa: a ASA
também sua conseqüência.
abrindo asas
sim
sem fim.


Paulo Baroukh 1984

Segunda-feira, Outubro 01, 2001

Espelho

escondi, em algum lugar de mim
um poema dedicado à vida
de modo que ninguém pudesse achar
sem revolver-me todo.

hoje arrependido procuro
o ofuscante poema em vão
e toco as entranhas
mais profundas do meu ser.

posso ver agora
a luz incessante do cometa perdido
e corro de possível felicidade
às outrora fúnebres profundezas.

caio de costas e aturdido
olho para todos os lados menos um
e vejo a fonte da radiante luz.

descubro que aquele velho verso tinha razão:
a vida tornou-se um enorme Espelho.


Paulo Baroukh 1982

Sexta-feira, Outubro 02, 1998

Cidade Selvagem

Era a cidade selvagem,
tudo concreto, armado, mal-amado.
Era o monstro da modernidade:
olhos voltados para o longínquo futuro.
Era o antro dos teóricos,
bêbados, perdidos, por demais silenciosos,
que aprendiam e depois vomitavam.

O turbilhão estava formado,
explosivo em potencial.
Tudo medo, tudo fuga, tudo absurdo.
Um grande circo
em que todos eram o palhaço
mas ninguém ria ao vê-lo pegar fogo.

A cidade era calva por ter arrancado os próprios cabelos,
era branca por ter proibido o sol,
roído pelo rato do poder,
mal por força do óbito.
Desespero, cuidado e violência,

E no centro de tudo
o cemitério dos passarinhos e dos poetas
abarrotado de corpos.

Nem Mar, nem Ar, nem Vento...
Só tempo, tempo e tempo.


Paulo Baroukh 1982